 O sonho acabou?
Durante gerações, a classe média dos Estados Unidos pôde ter certeza de que a vida de seus filhos seria melhor do que a sua. Isso mudou. O desemprego e as dívidas estão bloqueando o caminho da ascensão social e atingindo a autoconfiança estadunidense no coração Por Jürgen Schaefer (TEXTO) e Danny Wilcox Frazier, Anthony Suau e Andrew Lichtenstein(FOTOS)
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Protesto
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Em pouquíssimo tempo o poder dos gestores financeiros mudou radicalmente o sistema de valores do país
Adam Riensche não viu a morte chegar naquela manhã empoeirada. O verão havia ressecado a terra e as colheitadeiras que apanhavam milho por toda parte do estado de Iowa levantavam nuvens escuras de pó. Riensche, de 25 anos, magro, atlético e sempre ansioso, pegou sua picape e se pôs a caminho da lavoura. Nunca chegaria lá.
As terras cultivadas por ele pertenciam há mais de 100 anos a sua família, cujas raízes remontavam ao norte da Alemanha, de onde Friedrich Wilhelm Riensche emigrara em 1852. Primeiro ele se mudara do campo para a cidade alemã de Bremen e dali seguira para a "terra prometida", desembarcando inicialmente em Nova York. Por fim, foi para Iowa, no centro-oeste, onde havia muita terra barata disponível e tão pouco desbravada que os imigrantes alemães se espalharam por toda parte. Um único boi era suficiente para cultivar as poucas parcelas que o primeiro Riensche compartilhava com seu cunhado.
Com o passar dos anos a fazenda cresceu. Henry Riensche, da segunda geração, comprou mais terras; Erwin, da terceira, adquiriu cavalos; e Roland, da quarta geração, colhedeiras. Os modestos imigrantes transformaram-se em fazendeiros de classe média, que criavam gado nos pastos e cultivavam milho e aveia em 400 hectares de lavouras. Essa era a propriedade que o jovem agricultor Adam Riensche deveria assumir, mas, ao se dirigir à sua primeira colheita, um caminhão colidiu com a traseira de seu veículo, fazendo-o capotar e cair em uma valeta. No acidente, Adam Riensche quebrou o pescoço.
Sua trágica morte, em 5 de outubro de 1992, foi um ponto de virada na história da família. O que vem acontecendo desde então na fazenda em Iowa é sintomático de muitas coisas que vêm mudando no país, alterando seu sistema de valores.
Quando Adam Riensche se acidentou, seu irmão mais velho, Benjamin, trabalhava como gerente de investimentos no Swiss Bank Corporation, em Chicago. Ao contar a história de como se tornou fazendeiro, ele começa dizendo: "Eu vim de Chicago e tinha 50 mil dólares". O jovem Benjamin, de 32 anos na época, largou o emprego, voltou para Iowa e revirou a fazenda de seu falecido irmão. Suas primeiras vítimas foram os bovinos, que davam muito trabalho e não eram rentáveis. A estratégia era arriscada, mas Benjamin comprou e arrendou até cultivar uma área de mais de 40 quilômetros quadrados - dez vezes mais do que seu irmão.
No sul, a colheita começa mais cedo; no norte, termina mais tarde: isso melhora a eficiência operacional das máquinas. Atualmente, Riensche colhe três vezes mais milho por hectare do que seu pai Roland, que, aos 81 anos, ainda ajuda no campo. Quando criança, Roland Riensche colhia cada espiga à mão e as jogava em uma carroça puxada por cavalos. Hoje ele se senta ao volante de uma colheitadeira de 400 mil dólares.
O milho transgênico que cresce nas lavouras de Riensche sobrevive até aos verões muito secos. Ele é pulverizado com herbicidas até que não sobre nenhuma erva daninha ou capim entre as plantas. Benjamin Riensche não é mais um camponês; ele é gerente de uma produção agroindustrial que por acaso ocorre a céu aberto. Ele não se orgulha mais do que faz, mas do quanto ganha com sua atividade.
Sua estratégia revelou-se compensadora: nos anos 2000, foram construídas mais de 40 usinas de biocombustíveis em Iowa, para a produção de etanol de milho. Os preços do cereal triplicaram e Benjamin enriqueceu. Em 2012, suas terras valem provavelmente uns 50 milhões de dólares. Ele substituiu o antigo bangalô por uma vila de 600 metros quadrados, com piano de cauda, e pagou tudo à vista, em dinheiro. Na época do Natal, viaja com a família para o Taiti. E, quando quer falar com seu gerente no banco, aparecem dois homens que trazem pizza para todos os funcionários.
São histórias como essas que inspiram o mito estadunidense: de humilde catador de milho a milionário. Na quinta geração, o grande sonho do imigrante Friedrich Wilhelm Riensche finalmente se realizou.
Porém havia quem não compartilhasse de seu sucesso: "Meus vizinhos começaram a me desprezar desde que eu comprei toda essa terra", diz Benjamin francamente. "À noite o telefone tocava e alguém dizia: por aqui não gostamos muito disso".
Mas a fome de terras de Riensche é insaciável. O ex-bancário transformou-se em um "peso-pesado" econômico com quem praticamente ninguém da região consegue competir.
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