 Um Éden coberto de cinzas
O vulcão Tavurvur expele densas nuvens de cinzas há 17 anos. Uma espessa camada de partículas devastou as terras férteis da Ilha Matupit, no Oceano Pacífico, e, em alguns lugares, poluiu o mar. Ainda assim, muitos habitantes locais resistem, embora tudo ao seu redor - lavouras, jardins e palmeirais
- esteja morto ou morrendo. Mas eles têm uma riqueza: os ovos das fêmeas do chamado frango-do-mato- Por Roland Schulz
Espetáculos de fogo no céu noturno
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| Antigamente, terremotos indicavam a imensa potência do Tavurvur. Desde 1994 ele expele lava incandescente |
Assim que o sol desponta sobre o vulcão, os homens se põem a caminho. Eles caminham lentamente; cada passo levanta nuvens de cinzas do chão. Ao longe, a cratera do vulcão emite sons que revelam sua intensa atividade. Os homens ignoram o rugido. Eles caminham por uma trilha cheia de escombros, que já foi a principal rua da aldeia de Matupit, marcham pelas dunas de cinzas que soterraram o antigo cemitério da ilha e descem uma colina envoltos em nuvens de poeira até a praia, onde as pirogas, embarcações esculpidas em troncos de árvores, os aguardam. Em seguida cada um pega a sua canoa e a leva até o mar. Em fila indiana, o pequeno comboio desliza rumo à baía; os homens remam como se estivessem perfurando as ondas do mar com lanças.
Eliab Wuat rema em direção ao vulcão. Seu remo desliza tão suavemente pela água que sua embarcação parece voar pelo mar tranquilo da baía. É uma boa piroga. Wuat a batizou de "Takia", que significa "um achado", porque ele a encontrou boiando à deriva no mar ao largo de Matupit. Ele a arrastou até a ilha, calafetou suas rachaduras, e, já em sua primeira viagem até o vulcão, a nova embarcação lhe trouxe sorte. Desde então, ele sempre navega com "Takia" quando os homens de Matupit vão colher seus tesouros na montanha fumegante.
Há cerca de 20 canoas na água. Mais ou menos na metade do caminho, os barcos se reúnem e flutuam preguiçosamente à espera dos últimos retardatários. A tradição dita que nenhum homem pode desembarcar antes que todos estejam reunidos e eles respeitam isso até hoje, pois o vulcão destruiu tudo o que transformava Matupit na "Pérola do Pacífico": uma ilha abençoada com uma natureza fértil e uma vida local marcada por leis sensatas e muitos tabus.
Os homens estão de cócoras em suas canoas que balançam suavemente nas ondas. Alguns deles acendem cachimbos rudimentares recheados com uma mistura natural de ervas; uma nuvem de fumaça se espalha ociosa sobre o mar. Eliab Wuat abomina esse mau hábito. Há anos ele vem tentando aproveitar esse momento de silêncio, antes do início da corrida ao vulcão, para meditações bíblicas.
Nesse dia ele também escolheu uma citação para sua palestra, do livro de Malaquias, capítulo 3, versículo 7: "Desde o dia de vossos pais vos afastastes de meus preceitos e não os guardastes...". Wuat considerou o último livro do Antigo Testamento suficientemente enfático para alcançar até aqueles tipos decadentes, dependentes do fumo, que ele chama de "garotos da nova espécie" - rapazes jovens que, durante a semana, desfilam orgulhosos seus olhos roxos adquiridos nas pancadarias de fim de semana como se fossem medalhas. Como sempre, Wuat constatou que suas palavras bíblicas não tiveram nenhum efeito sobre os jovens. Quando o último retardatário se junta ao grupo, todos eles se põem em movimento remando em conjunto rumo à praia, como se tivessem escutado um inaudível tiro de largada.
Wuat fica para trás. Sua meditação bíblica ainda não tinha acabado; mas então ele também mergulha o seu remo na água e segue o grupo.
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Mais um dia sem aula: o vulcão e suas erupções determinam o ritmo da vida em Matupit |
Agora nuvens de poeira sulfúrica, amarelas como enxofre, pairam sobre o mar; o vento traz um cheiro acre de queimado. O vulcão está próximo. Seus flancos fumegam como um fogo antes de se extinguir. Mas esta é uma conclusão equivocada: nas fendas ao redor do cume, a terra arde há 17 anos com tanta intensidade que em algumas noites a Terra parece estar em brasas. Uma densa coluna de fumaça negra sobe ameaçadoramente rumo ao céu. A cratera está ardendo em chamas. No sopé do vulcão, do tipo efusivo (seu magma é fluido, a libertação de gases é fácil e a erupção é calma, porém com abundante derramamento de lava a temperaturas altíssimas), sobrevivem os esqueletos do que, algum dia, foram árvores: uma colina cheia de palmeiras decapitadas, árvores cauterizadas pelas cinzas incandescentes. Nada é verde; tudo é acinzentado. Os homens olham silenciosamente para a terra desolada. Quando vê essa paisagem, Eliab Wuat sempre se lembra de sua idade. Ele tem 64 anos e ainda a conheceu verde e luxuriante, coberta de glórias-da-manhã, primaveras (ou buganvílias) e pândanos - uma natureza que esbanjava vida.
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