 Sua majestade, o insubornável
Um rei na Nigéria? Parece pouco provável em uma República; só que ninguém mais acredita no governo do moderno Estado africano. O povo parece favorecer os soberanos do período pré-colonial - por exemplo, Sua Alteza, o emir de Kano Por Michael Stührenberg (TEXTO) e Pascal Maitre (FOTOS)
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Limusines de luxo, concubinas, um enorme batalhão de criados: o rei tem direito inato à riqueza. E à ovação de seus súditos quando ele sai de seu palácio |
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A cidade está cheia de lixo, a corte cheia de ouro
Cortesãos, guerreiros e músicos do rei cavalgam, aos milhares, através de Kano, um enclave gigantesco com mais de três milhões de habitantes. No Festival de Sallah, eles comemoram a conquista do território por seus antepassados |
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Um palácio de argila e um rei que não fala
O portentoso edifício no qual reside o soberano tem 500 anos de idade. Igualmente antigo é o protocolo oficial que coloca o rei tão acima da vida comum a ponto de ele não poder dirigir uma única palavra direta aos seus súditos |
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Cavaleiros jovens, tradições antigas
Os trajes usados nas comemorações do reino de Kano, no norte da Nigéria, parecem medievais. O culto às antigas tradições visa, entre outras coisas, tornar o caos no moderno estado um pouco mais suportável para seus cidadãos |
O ar na frente do palácio do rei de Kano está denso. As nuvens de poeira que pairam em meio à fumaça dos disparos dos mosquetes e o cheiro de estrume de cavalos e urina de camelos dificultam a respiração. Cavaleiros com ares orientais, armados com lanças, galopam pela praça de areia. Volta e meia eles trombam com os integrantes de uma infantaria de soldados que brandem seus cassetetes. Arqueiros com aljavas nas costas tentam se organizar em meio à confusão, enquanto uma cacofonia ensurdecedora de instrumentos de percussão, sons de flautas e gritaria humana procura atiçar os ânimos. Parece que todos aguardam apenas uma ordem de seu governante.
E este é Sua Majestade, o emir de Kano.
Neste dia, ele está no centro dos acontecimentos; em cenas que parecem acontecer na África pré-colonial, mas que ocorrem em uma megacidade da era moderna, que normalmente cheira a gases de escapamentos defeituosos e gasolina adulterada, a lixo em estado de fermentação e esgotos em canalizações entupidas.
Kano, a capital do estado homônimo, no norte da República da Nigéria, tem mais de três milhões de habitantes e, com isso, é a segunda maior metrópole, depois de Lagos, do país mais populoso da África. A cidade é um desordenado aglomerado de barracos e construções de concreto, de cocheiras cheias de cabras e fábricas. De pessoas que já vivem aqui há tempos e de aldeões que acabam de chegar, porque já não conseguem sobreviver nos campos cada vez mais ressecados da região do Sahel. De verdadeiros artistas que driblam a fome e que vivem, como 60% da população, com menos de um euro (pouco mais de R$ 2,00) por dia; e daqueles poucos eleitos que vivem em mansões e fazem suas compras em Nova York.
Talvez seja justamente por essa razão que o povo de Kano esteja comemorando o seu passado glorioso e homenageando o emir como seu símbolo – como agora, no festival de Sallah, diante do enorme palácio real no centro da cidade. O edifício já está ali há 500 anos. Em alguns lugares, seus muros chegam a dez metros de altura e têm quase a mesma largura na base.
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