 O reino distante
O império andino dos incas desapareceu há muito tempo. Entretanto, os políticos da Bolívia e do Peru estão invocando a antiga herança para conferir autoconfiança aos povos indígenas da região Por Sebastian Schoepp (TEXTO) e Castro Prieto (FOTOS)
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PERU - Crianças soltam PIPAS no alto da cidade de Cajamarca, onde o exército inca sofreu uma derrota decisiva contra os espanhóis em 1532; os peruanos chamam o seu "pão-de-açúcar", no Vale Urubamba, de PUTUCUSI - a montanha pode ser vista do topo das ruínas de Machu Picchu |
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PERU - Cópias de IMAGENS DE SANTOS do período colonial em um mercado em Písac; canoas INDIVIDUAIS de palha de caniço amarradas sobre o teto de um carro em Trujillo; PESCADORES em Chiclayo; GAROTINHA adormecida em Iquitos, a maior cidade na floresta tropical peruana |
CERTO DIA, Luís Castañeda cansou-se daquele panorama. Todas as manhãs, quando o prefeito de Lima abria a janela de seu gabinete, se queixava de ter de "olhar para aquele semblante ameaçador e agressivo". Por fim, Castañeda mandou remover a estátua de Pizarro. O fato de a principal rua comercial da capital, Jirón de la Uniõn, ter sido transformada em zona de pedestres em 2003 veio a calhar com seus planos. Castañeda decidiu que a estátua equestre do conquistador espanhol atrapalhava.
Sem tardar, o Francisco Pizarro de bronze foi retirado de seu pedestal e colocado na carroceria de um caminhão. Quinhentos anos após sua jornada vitoriosa, a penúltima cavalgada desse filho da baixa aristocracia espanhola, pastor de porcos e o grande destruidor do império inca, seguiu primeiro para um depósito municipal. Muitos aplaudiram sua remoção. Para os povos indígenas quéchua e aimará a verdadeira história do Peru não começou com Pizarro, mas terminou com ele.
Seu legado foi um sistema de governo fundamentado na dominância dos descendentes dos imigrantes europeus - e que, sob muitos aspectos, sobreviveu até hoje, 200 anos depois da luta pelo fim do domínio colonial espanhol. Os habitantes ancestrais do Peru, da Bolívia, e do Equador continuaram tão pobres e destituídos de direitos como sempre. A grande maioria permaneceu escavando com enxadas e às vezes com as próprias mãos as riquezas escondidas debaixo da terra - nas minas de zinco, prata, chumbo e ouro. Quem enriqueceu com isso foi apenas uma pequena elite pós-colonial.
Somente na década de 1920 o intelectual peruano de esquerda José Carlos Mariátegui escreveu sobre o sofrimento dos habitantes andinos e exigiu uma radical reforma social. Contudo, ainda levaria décadas até que alguém de fato se empenhasse em implantar politicamente a igualdade de direitos; Tal transformação não ocorreu no Peru, mas em sua vizinha, muito mais pobre, a Bolívia. Recentemente, o presidente boliviano Evo Morales anunciou sua intenção de estatizar as minas do país, que, para os habitantes nativos, constituem símbolos da determinação estrangeira desde os tempos coloniais.
Após sua independência, em 1825, a Bolívia foi inicialmente governada por grandes proprietários de jazidas, autoridades militares e oligarcas. As revolucionárias iniciativas sociais evaporavam porque os marxistas também menosprezavam os interesses dos povos nativos. A sociedade permaneceu dividida entre crioulos (os descendentes dos imigrantes europeus) e indígenas, em cujas tradições sobrevive a herança de seus antepassados históricos. A maioria dos habitantes andinos fala o idioma quéchua, que remonta diretamente aos incas. Na Bolívia, a língua aimará, mais antiga ainda, está mais amplamente difundida.
Desde o período pré-incaico, a menor forma de organização dos povos andinos é o ayllu ou aillo, comunidade familiar extensa que trabalha coletivamente um pedaço de terra, considerado propriedade comum. Defendido desde tempos imemoriais pelos camponeses andinos, esse conceito constitui um acentuado contraste com a política agrária e latifundiária dos senhores coloniais, que sempre procuraram destruir as comunidades indígenas por meio de reassentamentos.
"O caminho dos incas para a sabedoria" também foi incluído na nova Constituição da Bolívia
As antigas tradições religiosas também foram mantidas - embora sob as vestes do catolicismo. Deuses, como Pachamama, a Mãe-Terra, ou Ekeko, o deus da abundância e prosperidade, continuam regendo a vida dos povos andinos. Antes da construção de uma casa, por exemplo, é costume enterrar as cinzas de um feto de lhama no local, e a arte medicinal é dominada pelos xamãs. Até a concepção da passagem do tempo é diferente: para os indígenas ela não é linear - como nos países industrializados -, mas cíclica.
NA BOLÍVIA, APÓS O ANO 2000, o ayllu tornou-se foco de germinação de um movimento de base democrática, que produziria um líder político. Entretanto, a ascensão política de Evo Morales não ocorreu naturalmente. O aimará nasceu em 1959, em uma aldeia perto de Oruro, no inóspito e semideserto altiplano. Cresceu na mais abjeta pobreza, em um barraco de adobe, pastoreou lhamas, trabalhou como músico na aldeia e mais tarde como plantador de coca. Morales tornou-se líder do sindicato dos cocaleros, os plantadores de coca, e por fim, deputado. Pouco a pouco, ele conseguiu mobilizar a maioria populacional indígena e nesse processo aproveitou-se das caóticas condições políticas que seus antecessores neoliberais haviam deixado como legado no país.
Em dezembro de 2005, Evo Morales venceu as eleições presidenciais com 54% dos votos - o equivalente, aproximadamente, à da população indígena. Pela primeira vez desde a conquista espanhola, o "coração da América do Sul", como o herói revolucionário cubano-argentino Che Guevara chamava a Bolívia, o país seria governado por um índio aimará.
Morales proferiu seu discurso de posse do terraço do palácio presidencial em La Paz, diante de uma praça apinhada de pessoas, muitas delas aimará, quéchua, guarani e membros dos mais de 30 outros povos indígenas do país. Além da cerimônia oficial, porém, Morales insistiu na realização de um segundo evento, nas ruínas pré-colombianas do santuário de Tiahuanaku, no Lago Titicaca. A cidade, com seus templos e monumentos, foi centro de um grande império que desapareceu misteriosamente antes que os incas conquistassem os Andes. No Portão Kalasasaya, a entrada do antigo observatório solar de Tiahuanaku, Morales dirigiu-se ao espírito da cosmovisão andina e prometeu incluir a concepção de vida dos povos ancestrais na Constituição boliviana.
Em primeiro lugar, o voluntarioso socialismo andino de Morales garantiu ao Estado os direitos de posse das jazidas de gás e petróleo que alimentam a economia nacional. O dinheiro arrecadado foi investido nos rudimentos de um sistema social. Desde então, as cholitas - feirantes com saias coloridas - fazem fila diante das instituições pagadoras do novo seguro-pensão em La Paz. Agora elas sabem que também são representadas no Parlamento, onde proliferam representantes indígenas com seus chapéus de coco, tranças e sandálias.
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