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Natureza
 
 

Pesquisa de comportamento

Hienas


O enigma dos predadores inteligentes


Por Carsten Jasner

Uma cabeça maciça, mandíbulas poderosíssimas e 34 lâminas afiadas na boca: hienas-malhadas (Crocuta crocuta) conseguem devorar mais de 14 kg de carne em uma única refeição e defendem a presa do clã com “unhas e dentes” de outros animais famintos – inclusive contra abutres

 

REAGAN DOMINA OBAMA?”.
“Não tenho a menor ideia”.
“Reagan sumiu, provavelmente foi morto”.
“Mas, afinal, qual é o sexo de Obama?”.
“Ela é fêmea”

Parece que a cúpula da história ocidental reuniu-se na África Oriental quando se escuta o diálogo dos dois estudantes sentados em uma barraca na Reserva de Vida Selvagem Masai Mara, ao norte da planície do Serengeti. O Sol equatorial desponta suavemente acima da floresta à margem do rio Talek, em cujas sombras ainda jazem no escuro as barracas da cozinha, dos alojamentos e da “sede”. A conversa indica que presidentes, descobridores, astros pop, grandes estilistas, índios e deuses gregos estão interagindo à vontade em uma área de 1.500 km2. Nesse diálogo pode acontecer que deusas supremas como Artemisa ataquem Jimi Hendrix, ou que Wellington se atrele a Gucci; que uma índia navajo troque carícias com Jimmy Carter, enquanto Joan Baez se engalfinha com Vasco da Gama por conta de um café da manhã.

Todos os donos desses nomes sonoros e conhecidos são hienas-malhadas (Crocuta crocuta), cujas fotos os estudantes identificam no momento da conversa e inserem em pastas transparentes.

O fato de os animais não se chamarem “Pedro” ou “João”, ou que apenas tenham um número de identificação, tem razões práticas; afinal, os pesquisadores comportamentais estudam há anos seis grandes clãs de hienas, cada um com cerca de 50 animais. Por essa razão é útil batizar os animais com nomes “temáticos”, que refletem seu grau de parentesco. Jimi Hendrix, Joan Baez e Johnny Cash, por exemplo, são tão meios-irmãos como Reagan, Obama, Roosevelt e Clinton, cuja mãe Navajo, de 17 anos, pertence a uma geração de tribos indígenas.

Lindinhas, mas dispostas à luta logo após o nascimento. As hienas-malhadas nascem com os olhos abertos, o característico pelo negro dos filhotes e dentes incisivos e caninos já formados. A mãe amamenta suas crias até os 18 meses com um leite riquíssimo em gorduras e proteínas

EM GERAL, AS HIENAS-MALHADAS não são animais que recebem nomes. Essas criaturas são consideradas covardes, perversas, terrivelmente feias e estúpidas. Para refutar essas noções, ou pelo menos investigá-las, são necessários cientistas que agem como advogados e que não apenas observam os animais de perto e recolhem provas, mas que desenvolvem uma verdadeira paixão por seus objetos de estudo. Pessoas que lhes dão nomes e que talvez até sejam suficientemente corajosas para propor uma tese contrária à teoria corrente. O que aconteceria se as hienas não fossem tão estúpidas como se acredita, mas inteligentes como os primatas? E se no fim das contas a raiz de nossa própria capacidade racional humana pudesse ser encontrada também nesses predadores tão frequentemente menosprezados?

Um pouco acima de um banco de areia no qual um crocodilo cochila ao sol, às margens do rio Talek, encontra-se a barraca daquela que tem surpreendido os especialistas com esses tipos de perguntas: Kay Holekamp, de 57 anos, professora de Zoologia da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos. Ela é uma mulher de cabelos loiro-avermelhados, simpática e um pouco tímida. Acima da entrada de sua barraca encontrase pendurada uma caveira que revela instantaneamente por que as hienas são capazes de despedaçar um osso femoral de uma girafa com a mesma pressão de uma tesoura para chapas de metal: seus dentes incisivos, parecidos com os de tubarões, e caninos de 3 centímetros de comprimento são capazes de desenvolver uma força de até 9.000 newtons – oito vezes mais do que duas mandíbulas humanas.

Embora a caveira seja assustadora, Holekamp se dedica principalmente ao que se passa dentro de um crânio desses. Logo atrás do osso frontal, segundo ela, existe uma área notavelmente bem desenvolvida tanto nas hienas-malhadas como nos seres humanos. No Homo sapiens, ou seja, na nossa espécie, essa região, chamada de “lobo frontal”, sempre se torna ativa quando é preciso decidir a quem se deve proteger, quem é amigo e quem é melhor evitar. Holekamp afirma que nas hienas ocorre um processo semelhante, razão pela qual essa região é tão fortemente “requisitada”.

A cientista está convicta de que nos clãs desses animais predomina uma ordem estritamente vertical, na qual as fêmeas comandam e a sequência hierárquica do poder muda com cada novo filhote que nasce. Segundo ela, é isso o que torna a sociedade das hienas-malhadas tão complexa – “como na realidade só se conhece na sociedade antropoide”.

Essa tese soa bastante estranha, pois o último ancestral comum dos seres humanos e das hienas viveu entre 90 e 100 milhões de anos. Portanto, do ponto de vista puramente genético, não há muito que nos vincule, juntamente com outros macacos inteligentes, aos predadores aparentados de longe com a família dos Felidae. Segundo a tese de Holekamp, se os antropoides (o que inclui o homem) e as hienas-malhadas se diferenciam de outros animais pela complexidade de suas estruturas sociais, então, apesar da separação de suas histórias evolucionárias, eles poderiam ter desenvolvido mais traços singulares em comum no decorrer dos milênios. Por exemplo, uma inteligência superior.

Quando a hiena parou de respirar, Kay Holekamp salvou o predador com uma respiração boca a boca

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