 O anjo fotográfico
Três paixões movem George Steinmetz: a fotografia, o deserto e a África. E ele achou um meio de se entregar às três com perfeição. Em um parapente ele se ergue nos ares e voa em busca de novas perspectivas. Seu combustível é a ambição de substituir boas fotografias por melhores ainda. Aterrissagens forçadas são inevitáveis Por Hania Luczak (TEXTO)
A África parece ser suficientemente longe e, em 1979, aos 21 anos, ele resolve viajar pelo continente, de carona e com a câmera. Lá ele toma a decisão de se tornar fotógrafo profissional e é lá que ele encontra, em outra viagem, um piloto da mata, cujo ultraleve cabe na carroceria de uma picape.
Steinmetz compreende qual combi- nação poderia lhe abrir a chance de sua vida: voar e fotografar. Nesse ínterim, Steinmetz viu mais da Terra do que jamais sonhara. Mas ela não perdeu nem um pouco do magnetismo que exerce sobre ele. A África também não, pois é totalmente diferente, tão doida, tão desolada, tão bela. É uma espécie de fuga que o impele a voar por sobre a África? Ele prefere chamar isso de "check out", uma saída do seu mundo privilegiado.
E essa saída é bastante desejada. Sua esposa, que trabalha fora, e seus três filhos ficam em casa, em New Jersey. Ele diz amar muito os seus, em sua maneira honesta, mas, emocionalmente, a separação prolongada não lhe traz problema algum.
Problemas - o que é com ele mesmo - seriam bem maiores se Steinmetz se afastasse da luta na concorrência globalizada dos fotógrafos top internacionais. Ele aceitou essa batalha em uma superfície de projeto enorme: o deserto. Nessa superfície, ele quer ser o melhor; pelo menos, único. Reconhecido entre o exército de fotógrafos de paisagens, que não existem como areia no deserto, mas vêm em número tão grande, que está ficando cada vez mais difícil se sobressair.
"Você pode ser tudo que quiser. Só que tem que querer mesmo. Só então você consegue". Quando Steinmetz diz isso, soa indiferente, quase despreocupado. Mas não se trata de romantismo. É a mais pura teimosia que lhe dá essa certeza. Sua esposa o deixa livre. Ela não pede por aquilo que não pode receber. Steinmetz lhe prometeu parar de voar, após o projeto do deserto. Quando será isso? Há tantos desertos ainda para explorar, no Egito, na Algéria, no Chade, cada qual tão surpreendente, tão empolgante. Mesmo os já conhecidos ainda não foram sobrevoados na melhor luz, na melhor rota, com o tempo necessário. Seu trabalho ainda está incompleto.
Steinmetz diz que não é um colecionador. Seu caminho deve ser criar algo duradouro. E, para chegar a isso, ele é intransigente, com ele e com os outros. Às vezes, você tem que ser um sacana, para receber aquilo que você quer, diz Steinmetz. Quando ele dirige grandes expedições, por exemplo, no Irã, onde 14 carros o seguem, ele pode se apresentar como um pequeno ditador. O seu respeito pelas necessidades de seus acompanhantes se mantém em limites. Mesmo que suas equipes às vezes o odeiem, e seus colegas se aborreçam com ele: lágrimas secam, ele acredita.
Mas Ícaro não acabou queimando as asas assim? Oh, sim, responde Steinmetz. Não se pode levar longe demais, caso não se queira, de repente, estar no meio do nada sem equipe.
Considerar os riscos é, às vezes, porém, um aprendizado difícil. Como na Arábia Saudita, quando, rangendo os dentes, teve que aceitar que seus guias se retiravam cinco vezes por dia para orar - mesmo sob as melhores condições de luz. Ou no Chade, onde teve que retornar, para não correr perigo de ser raptado. Até hoje, a paisagem de sonho das crateras de vulcões das montanhas Tibesti não lhe sai da cabeça. Simplesmente lhe cortou o coração, não poder continuar voando, diz Steinmetz.
O que ainda está por vir será inexoravelmente, e pouco a pouco, mais difícil. Em 2007, na Bolívia, em 6.000 metros de altitude, ele sentiu pela primeira vez sua finitidude, ele confessa, com pesar e um pouco de rebelião na voz. O esforço da subida parece estar até hoje em seus ossos. Mas ele tinha que subir.
O sentimento de tê-lo conseguido é quase uma orgia, diz Steinmetz. Captou, por fim, uma estrutura geológica única, apesar de todos os percalços. São esses os momentos de intensa e vibrante alegria dentro dele. É quando ele se sente vivo e, de noite, se mostra um outro Steinmetz; alguém que sabe apreciar a hospitalidade dos beduínos, tomar sonoramente seu chá, fazer piadinhas e filosofar sobre a vida. Mas mesmo sob a abóbada de estrelas de uma noite do deserto, uma parte de sua tensão básica permanece.
Especialmente quando nos sentimos bem, devemos ficar atentos - é um dos lemas do fotógrafo. Todo esse trabalho para fotografar formações sem vida da história da Terra? Que alguém se espante com isso, espantaria, por sua vez, o próprio Steinmetz. Quem se entrega a um tema como ele, não poderá lhe buscar os motivos, pelo menos por um tempo. Isso o enfraqueceria, lhe tiraria a imprescindibilidade, talvez até lhe desse medo. Steinmetz, aquele que completa, sobrepuja tudo isso com um rigor quase sóbrio, e com certa rendição à tarefa que ele próprio se impôs.
Não é por acaso que ele cita em seu novo livro uma frase da trilogia "L'Usage du Monde", de Nicolas Bouvier: "Uma viagem não precisa de motivos. Ela comprova rapidamente que ela se basta a si mesma. Acredita-se que se fará uma viagem, mas logo se constata que é a viagem que nos faz - ou que nos acaba."
Apenas uma vez ele se afastou de livre e espontânea vontade de seu caminho bem organizado todos os dias, na fronteira do Iêmen. Na periferia de uma aldeia de tendas, ele e sua equipe se depararam com duas gaiolas no deserto. Presos nessas gaiolas se encontravam um menino e uma menina, ambos nus. Foi um choque, diz Steinmetz. Ele consegue descobrir a família que de maneira tão cruel havia banido seus pequenos doentes mentais. Ele vai ao hospital mais próximo, procura as autoridades. Foi uma luta, ele diz. Só depois de afirmar e reafirmar que a menina estava presa nua, os responsáveis desse país islamita ortodoxo resolveram se mexer.
Durante suas viagens, Steinmetz normalmente não tem tempo para a reflexão. Ele tem que organizar pessoas, gasolina, caminhos e seu material óptico. Uma tarefa complexa, um trabalho de 24 horas. Ele não se pode dar ao luxo de conflitos internos, diz. Somente uma coisa conta realmente: o próximo horizonte. Mas o distante não se repete, mesmo o antes nunca visto não acaba se parecendo, algum dia? Steinmetz reflete por mais tempo que o usual.
Talvez me falte realmente algo, ele diz, paisagens emotivas não são a minha praia. E fala que gostaria de ser mais sensível aos sons mais baixos e que, às vezes, tem inveja de seus colegas que escrevem, que se retiram e conseguem observar seus sentimentos, por exemplo, diante do efeito do silêncio.
Pode-se ver o silêncio? Pode-se fotografá-lo, também? "Talvez seja esse o próximo horizonte que eu atravesse, quando eu for mais velho e tiver que voltar ao chão", diz Steinmetz. Mas isso ele só quer decidir quando for a hora.
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Até agora, George Steinmetz fez aproximadamente 30 fotorreportagens para a GEO. Mesmo que seu amor pela África permaneça inquebrantável, há algum tempo ele se dedica mais às paisagens da China. "Quero mostrar a incrível amplidão desse país", ele diz. |
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