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Alta-Natureza


Com seus exuberantes trajes emplumados e danças refinadamente coreografadas, as aves-do-paraíso transformam a floresta tropical úmida no palco de um espetáculo de tirar o fôlego. O que há por trás dessa extravagância animal?


Ines Possemeyer

Tim Laman
Bandeirolas de penas verdes, pés azul cobalto, manto escarlate: a cintilante apresentação do Cicinnurus regius

Meu camarote nada mais é que um minúsculo abrigo de um metro quadrado construído com folhas de palmeiras, dotado de um banco rústico feito de galhos úmidos, e povoado por um enxame de mosqui- tos. Através de um orifício na parede de vegetação vejo um pedaço de terra nua no chão da floresta tropical: o palco do Cicinnurus magnificus, o "magnífico".
Desde o amanhecer, ele faz ecoar pelas cercanias o seu barulhento kyeng, kyeng: anúncio de que seu desfile de moda terá início em breve. Mas nenhuma das espectadoras emplumadas apareceu até agora. Talvez elas já tenham seguido o chamado de outro. Como em um passeio para olhar vitrines de lojas, elas vão dando suas voltas até encontrarem o mais maravilhoso de to- dos. Então despertam.
Um esvoaçar sobre a minha cabeça me sobressalta. O magnífico repousa em um galho, 2m acima do palco: um iridescente peitoral verde, berrantes asas vermelho alaranjadas; por cima, uma capa amarelo limão debruada com um felpudo colarinho marrom. Para completar, os pés, o bico e um delineador de olhos que se estende até a nuca, tudo em azul cobalto. A ave-do-paraíso macho arranca algumas folhas para melhorar o contato visual com o público e aprimorar a iluminação. Em seguida, varre de sua passarela algumas folhas recém-caídas.
Finalmente! Uma dama alada toma lugar na tribuna, em um galho diretamente acima do palco. É hora do show! A cerca de 0,5m do chão, o magnífico se agarra verticalmente no caule de uma muda fina já bastante desgastada, sua percha acrobática, e infla seu escudo peitoral em uma espécie de babador com ombreiras, tamanho XXG. Como um fisiculturista, ele exibe os movimentos de seus músculos para realçar sua cintilante plumagem peitoral verde. Em seguida, eriça as penas cervicais, até que elas emoldurem sua cabeça, como um pomposo leque amarelo. O macho paradisíaco se sustenta tremendo nessa posição. A fêmea, em discreto traje bege amarronzado, se aproxima a dois palmos de distância.
Mudança de pose: o bonitão executa um volteio de 180º e arrufa suas asas vermelho alaranjadas. Depois expõe sua plumagem caudal de tal modo que sua visitante obtenha uma visão direta de todos os seus atributos.
Mas, espere aí! O que é isso? Ele deveria estar os- tentando cintilantes abas de fraque azuis: duas longas penas intermediárias, parecidas com arames dobrados para fora em forma de foice, que ele faz girar no ar, como um laço. Em vez disso, apenas dois cotocos são visíveis. Ou esta é a exibição de um principiante, ou então, desde a muda, a grandiosa plumagem ainda não se desenvolveu plenamente para este fim de verão. Desapontada, a madame vira as costas e o magnífico desaparece atrás da cortina de folhagem.

Modelos, dançarinos, acrobatas aéreos. O que é um desfile de modas parisiense
em comparação com esse show de aves paradisíacas?

Tim Laman Tim Laman
O Cicinnurus regius é a menor das aves-do-paraíso e seu mais zeloso cantor Cicinnurus magnificus corteja as fêmeas com seu reluzente peitoral

 

 

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