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Ciência
 
 

Entre a Luz e a Escuridão


Por Susanne Paulsen (TEXTO)

Cegueira significa viver em uma masmorra obscura - esta é a ideia de quem enxerga. Felizmente, em muitos casos, trata-se de uma ideia falsa. Não existem apenas os reinos do claro e do sombrio, do nítido e do nebuloso, da lembrança e da imaginação nos quais se orientam os deficientes visuais. Em muitos, o sistema nervoso produz imagens singulares. Estas pessoas enxergam sem a visão. Um grupo de fotógrafos com deficiência visual se impôs o desafio de visualizar imagens à sua maneira e transportá-las para o mundo exterior. O que os cegos percebem com frequência não é compreensível aos que enxergam. E para os especialistas, isso permanece, ainda, um grande mistério

Flashes iluminam pessoas em um espaço totalmente escuro: com essa técnica, o grupo artístico Seeing with Photography (Vendo com Fotografia), de Nova York, faz experimentos. O retrato foi composto pelo diretor de projeto do grupo, Mark Andres

Quando criança, oliver nadig adorava subir em torres. Quanto mais altas, melhores. Escalou uma torre de reservatório de água no Sarre, na Alemanha, subiu na torre de televisão em Munique e na torre de televisão da Alexanderplatz, em Berlim, cujas vidraças vão do teto ao chão. Lá de cima, o menino de cabelos escuros olhava para baixo pelas lentes grossas de seus óculos. Ele nasceu apenas com um "resto" de capacidade visual. As cores lhe eram estranhas e não conseguia reconhecer detalhes.

Mas ele via - de forma sombreada, acinzentada e muito distante - a paisagem de ruas, casas e automóveis. Nessas horas, a consciência do que é espaço acometia- o sempre com força vertiginosa. E profundidade. "Talvez a senhora não faça ideia", diz ele, "da experiência inacreditável que isso pode ser."

Acabou. O mundo de Oliver Nadig mudou radicalmente. No ano de 2001, com 31 anos, perdeu o que lhe restara de sua visão. Retinitis pigmentosa, uma doença hereditária, destruiu por completo sua retina. Aos seus olhos castanhos resta apenas a missão de embelezar o rosto. Eles olham para baixo. As pálpebras estão semicerradas. Nadig, nesse ínterim psicólogo e engenheiro de computação na cidade alemã de Marburg, trabalha como professor de informática em uma instituição de reabilitação para pessoas com lesões oculares.

Em seu caminho, deixa pender diante dos pés a longa bengala. Embora ele se concentre, suas feições permanecem relaxadas. Pressente placas e juntas. Degraus. As partes inferiores dos postes de luz. Muros de fundações. Os pedestais das jardineiras. Papel. Pequenos galhos. Ele espreita as menores alterações do eco produzido pelas raspadas e batidas de sua bengala.

Acompanha com atenção as pequenas brisas que lhe indicam os vãos entre os prédios. Fareja fumaça, mofo, cachorros, pãezinhos, desodorante.

A CEGUEIRA, escreveu John Hull, professor universitário britânico e deficiente visual, em seu ensaio Recognising another World (Reconhecendo outro mundo) é, "provavelmente, de todas as deficiências, a mais fácil de simular, mas sem dúvida a mais difícil de entender". Então, como seria viver os sentidos em um mundo só de odor, som e contato? Sem imagens externas, sem visão geral? O mundo dos sentidos dos cegos é pobre? Ou, pelo contrário, rico? Pessoas que precisam explorar a esfera além da visão descobrem lá, por vezes, tesouros insuspeitados?

Para os que enxergam, a cegueira, de todas as deficiências, é a mais fácil de simular, mas a mais difícil de compreender

De acordo com uma pesquisa da Organização Mundial de Saúde, em 2004 havia cerca de 37 milhões de cegos em todo o mundo. Na média de todos os países, menos de 0,1% das crianças menores de 15 anos estava cega e no máximo 0,2% das pessoas entre 15 e 49 anos. As diferenças mais marcantes apresentaram-se na população acima dos 49 anos: enquanto no sul e no norte da Europa 0,5% dessas pessoas é cega, a parcela na Turquia chega a 1,2%; no Brasil, a 1,3% e na Índia, onde o número de cegos reduziu-se drasticamente nos últimos tempos, permanece ainda em torno 3,4%.

Embora o estudo apresente lacunas (dados da Rússia, por exemplo, não puderam ser incorporados), mostrou-se uma tendência geral: a maioria dos afetados vive com uma cegueira conhecida como periférica. Ou seja, seu estado não é causado por um cérebro lesionado - por exemplo, acidente vascular cerebral ou outro acidente -, mas por doenças ou ferimentos dos olhos ou do nervo ocular.

Para o homem, criatura visual, cujo cérebro normalmente dedica uma parte considerável de sua capacidade ao processamento de estímulos visuais, a cegueira periférica constitui um estado de exceção dramático. "Quando perdi o mundo dos que enxergam", relata Hull, "de início, eu não tinha mais um mundo. Era incorpóreo, desnudo, desprotegido, em um espaço infinito, escuro. Somente pouco a pouco alvoreceu um mundo novo".

Ficar cego, dizem os especialistas, é uma grande e pavorosa passagem: morrer como alguém que enxerga; ressuscitar como cego. Alguns dos afetados fracassam diante desse desafio extremo. Depressão, alcoolismo, hipocondria ou até mesmo suicídio ocorrem após serem acometidos pela cegueira. Outros conseguem, depois de algum tempo, voltar a uma vida plena.

Roseann Kahn iluminou sua foto com correntes de luzes em redemoinho. A produtora de TV, já falecida, sempre se divertia ao fotografar, mesmo quando, depois de ficar cega, só conseguia ver a luminosidade do sol ou da neblina

"Eu me viro bem", diz Oliver Nadig. "Mas a vida em uma sociedade direcionada para quem enxerga é penosa e consome bastante tempo. Imagine-se cego ou deficiente visual grave em um supermercado e procure um xampu ou um pacote de ravióli".

Nadig diz que tem curiosidade sobre a aparência de sua namorada. E, às vezes, sonha em novamente estudar um livro de matemática na universidade sob o aparelho de leitura para deficientes visuais. Ele gostaria de poder enxergar outra vez, no mínimo tão bem quanto em sua juventude; contudo, ele acrescenta, esse pensamento lhe causa tanto medo quanto alegria. Pois enxergar, por mais estranho que pareça, limitaria seu mundo. Então a cegueira não é uma masmorra escura? Exatamente, responde Nadig, em tom sério.

Mesmo "escuro" é um mal-entendido. Ocorre porque aqueles que enxergam partem muito de si mesmos. Na verdade, os cegos têm as mais diversas coisas diante dos olhos: os olhos dos cegos de nascença, por exemplo, não veem nada, exatamente quanto pode enxergar uma mão ou uma orelha. Por isso, deficientes visuais inatos têm uma relação com a luz talvez idêntica àquela dos que enxergam com os campos magnéticos da Terra, que as aves migratórias utilizam para orientação: para eles é óbvio que o fenômeno exista, mas essa experiência permanece na teoria.

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